sexta-feira, 27 de maio de 2011

A Cadeira de Balanço*


Seus ternos olhos de uma senhora de seus 86 anos ainda estavam vívidos e brilhantes. Estava agora sentada na varanda de sua casa em sua valiosa cadeira de balanço. Ah, fora ali que aprendera a fazer o seu primeiro bordado e que dera pela primeira vez mama ao seu primogênito, todavia agora o seu velho assento a arrancava da realidade e fazia-lhe devanear com seu doce embalo. Cada seqüência uma esperança de voltar no tempo, de reviver tudo que vivera com intensidade.
Rememorava agora o primeiro beijo que recebera de seu falecido esposo e único amor, beijo esse que fora-lhe roubado na tentativa de ser correspondido no que dizia-se respeito aos seus sentimentos. Em seguida ao beijo veio o casamento e logo depois os seus preciosos filhos que os fizeram tão felizes. Eram três, dois homens e uma mulher, a caçula. Chamavam-se João, Miguel e Laura, que, respectivamente, seguiram carreira de médico, advogado e pedagoga. Eram demasiadamente afetuosos e somente davam orgulho aos seus pais. E o balanço de sua cadeira lhe evocava os risos e gritos pela casa que agora estava silenciosa e absurdamente sombria sem eles. Contudo o seu vagar também lhe trouxe os dias que cada um foi-se embora em busca de seus respectivos destinos deixando para trás o vazio na casa e no peito de ambos, dela e dele, seu marido. O riso morrera. O tempo passava devagar e ela teimava sempre em olhar pela janela na esperança de vê-los voltar, mas o tempo passou e eles não regressaram. E o balançar de seu assento a transportava para momentos tristes e felizes, arrancando lágrimas daqueles olhos sábios que com seu lenço de renda as enxugava. O momento mais triste de sua vida minou em forma de lembranças. Lembrou-se do último abraço, do último sorriso, do último beijo, do último adeus. Ele se fora, o seu grande amor, seu companheiro, seu amante, seu amigo, seu marido. Fora abandonada por todos que mais amara e perdera a esperança de olhar pela janela. Porém hoje era um grande dia, deixara de olhar pela janela para ir de encontro à porta para receber seus filhos não mais na idade da inocência. E o riso e os gritos voltaram, contudo o sorriso era aquele meio apagado pela falta de um pai e marido e todos procuravam nada falar. Agora tinham as crianças, seus netos. Nesse momento eles disputavam para ver quem seria o primeiro a sentar-se na cadeira da Vovó Isaura. André por ser o mais velho, por isso o mais esperto, fora o primeiro a se balançar. Ele se balançava efusivamente na sua cadeira. – Criança vá devagar que o tempo não se demora e as lembranças irão defrontar a ti. Então com um sorriso bondoso afagou-lhe a cabeça. Sabia que eles seriam felizes e ela não estaria ali para poder observá-los crescer, mas eles teriam a sua inestimável cadeira, esse momento e muitos outros para recordarem. Então saíra da varanda e agora entrava em casa. – Venham meninos que o tempo está muito frio ai fora. Todos entraram. Ela não viu, mas a cadeira continuou a balançar e assim ficou por toda a noite.Todos estavam em casa, mais uma vez.

15 comentários:

  1. Que texto maravilhoso!
    É tocante ver a passagem do tempo aos olhos de uma velha senhora. E também triste em certos momentos...
    A solidão dá medo. Ficar vivendo do passado... Desejo coisa melhor para meus avós, meus pais e para mim mesmo no futuro.
    Isso foi muito comovente.

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  2. que ótimo texto..
    vc já sabe né..
    adoro seus textos..

    abraços..

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  3. Bonito texto!
    O Brasil precisa de contos como esse para mostrar ao homem que ele é ser humano.
    __________________________________
    http://alteregodonuti.blogspot.com/

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  4. MUITO BOM MESMO ESSE SEU TEXTO. ELE É DE UMA PROFUNDIDADE ENORME.AS LINHAS DE TEMPO SERVEM PARA ISSO MESMO: NOS LEMBRAR DO PASSADO E CONECTAR ELE AO NOSSO PRESENTE. MUITO BOM.


    http://thebigdogtales.blogspot.com/

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  5. Parabéns pelo blog.. entra no meu e se gostar pode seguir!!

    ESTOU COM UMA PROMOÇÃO DE UM PAR DE INGRESSO PARA O CINEMA NO BLOG!!! Se quiser pode concorrer.

    ps.: estou te seguindo!

    Abraço,
    PREGUIÇA ALHEIA
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  6. Hey, belo post!!! Mesmo, mesmo, pude sentir a lembrança no meu peito!!!

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  7. otimo texto parabens

    se possivel visite meu blog

    www.semente-terra.blogspot.com

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  8. Belíssimo texto. Isso é muita sensibilidade. Parabéns!

    www.amoreacalanto.blogspot.com

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  9. Lindo texto, te encontrei na com do orkut. Amei, já me tornei seguidora.
    Se quiser dá uma olhadiinha
    http://mixbabados.blogspot.com/
    bjs

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  10. ótimo texto... Parabéns pelo blog estarei sempre aqui!!!

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  11. olá querida..
    obrigada pelos elogios..
    fico lisojeada..
    você sabe que sou sua fã não é mesmo?
    receber elogios de bons escritores como você me inspira a continuar..

    Que bom que notou amadurecimento em meus textos, tenho praticadao bastante..acho que isso ajuda..


    abraços..

    e você sabe sempre estou por aqui, ansiosa por seus novos textos..

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  12. Prabens pelo blog ja estou seguindo...
    Seiga o meu ae
    http://tvergonha.blogspot.com/

    Abracos !!!

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  13. Este conto é ótimo, muito emocionante, pois lembramos de nossa avó e de fatos semelhantes.

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  14. Esse texto é um verdadeiro arco-íris de sentimentos va-seriados,solidão,dor,saudades,principalmente quando morre alguem que amamos muito como o marido dessa senhora.Há um filme um pouco parecido com essa história chana-se Diario de uma Paixão.É im filme lindo,só que um pouco diferente,a esposa perde a memoria no asilo então o companheiro recorada num diario deles sobre o primeiro encontro,namoro,casamento até que ela se recorda e esquece novamente e ele começa tudo de novo.Bjs tudo de bom pra Voce!!!

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